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23 de março de 2025

Ecologia Integral, por Manfredo Araújo de Oliveira

No Sínodo da Amazônia de 2019, o Papa fala de "pecado ecológico", que se efetiva enquanto desrespeito pelo Criador e por sua obra (Foto: Reprodução/Vaticano)

Na Exortação Apostólica "Laudate Deum", o Papa Francisco alerta a humanidade para a incontestável coincidência existente entre os fenômenos climáticos globais e o crescimento açodado das emissões de gases de efeito estufa, provenientes do industrialismo capitalista mundial desde o século XVIII, que gestou alterações radicais no clima da Terra. Esse modelo econômico-social valoriza apenas a técnica e o lucro cruel e excludente. De 1850 até hoje, a temperatura global aumentou 1.1 grau Celsius, fenômeno agravado nas áreas polares. No último meio século, a temperatura subiu numa enorme velocidade. Tudo isso é produto da conjunção de enormes progressos com a intervenção humana desenfreada sobre a natureza e nos conduz a uma crise tanto na vida social quanto no meio ambiente.

No Brasil, as transformações no uso da terra, que produziram a devastação de todos os biomas brasileiros, constituem a fonte de 48% do total nacional de emissões. O Brasil contribuiu para o aquecimento global por meio do desmatamento, que joga grandes quantidades de CO2 na atmosfera, da agropecuária (27%), que é grande fonte de metano, do consumo de energia em processos industriais (22%) e dos resíduos de lixo (4%). Assim, o Brasil se tornou o quarto maior emissor dos gases que geram as mudanças no clima, sobretudo pelas queimadas.

O Papa não se cansa de lembrar que o planeta é nossa Casa Comum, onde todas as coisas são profundamente interconectadas em relações de interdependência, troca e cooperação e, consequentemente, não pode ser compreendido de forma fragmentada. A Ecologia Integral pressupõe uma interrelação entre o Criador e sua criação, no seio da qual o ser humano deveria distinguir-se como protagonista do cuidado, consciente de sua missão de guardião responsável pela Casa Comum.

No Sínodo da Amazônia de 2019, o Papa fala de "pecado ecológico", que se efetiva enquanto desrespeito pelo Criador e por sua obra, que é a Casa Comum. O Papa considera esse pecado como um tipo de cegueira e perda de sensibilidade para com o mundo, ao nosso redor, por tratarmos as pessoas e os seres vivos simplesmente como objetos, destruindo, de modo irresponsável, a natureza por meio da exploração dos recursos da Terra, entregando às futuras gerações um planeta fragmentado e insustentável. Ecologia Integral significa justamente que não é possível separar as questões ambientais, sociais e antropológicas.

Por esta razão, compreendendo a complexidade dos desafios que a humanidade tem diante de si, o Papa considera a importância de uma abordagem profética, ousada e sistêmica para se enfrentar a crise socioambiental. Além das pequenas ações, que estão ao nosso alcance, revela-se a urgência de mudanças estruturais no âmbito da política, da economia e da ética, com o objetivo de superarmos a crise que nos aflige. Ele considera importantes a atuação dos corpos intermédios da sociedade civil organizada e a compreensão de que, em escala mundial, "muitos grupos e organizações da sociedade civil ajudam a compensar as debilidades da Comunidade Internacional, a sua falta de coordenação em situações complexas, a sua carência de atenção relativamente a direitos humanos fundamentais".

Publicado originalmente no O Povo+

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